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quinta-feira, 31 de março de 2011

Lembranças da redentora

Eu tinha 13 anos em março de 64. Lembro das novenas que frei Arthur Kleber, vigário de Gaspar, vinha realizando desde o início do ano para que não acontecesse uma guerra civil no Brasil. Os homens se reuniam belicosos prontos para matar qualquer comunista que aparecesse. Imaginava que todos seriam vermelhos como o sangue dos bois abatidos todos os sábados. O pequeno açougue, um mangueirão afunilado por onde uma res era tangida e abatida com um golpe de ferrão na nuca. Ainda estrebuchando o bicho era arrastado para o rancho de piso cimentado com uma calha rebaixada no centro, O boi era sangrado e o sangue escorria, e pela calha chegava à lagoa próxima. Ali fervilhavam famintos piavas, sairús, jundiás e tajabicús.
Imaginava que também sangraríamos os comunistas. Mataríamos com a benção do frei Arthur. Em Gaspar, sob a sombra e proteção de nossa Matriz eles não pisariam. Muitos dos homens mais velhos recontavam histórias da revolução federalista quando tocaiaram e expulsaram Gumercindo Saraiva no passo do Capim Volta. Uns dois eram remanenscentes a Prmeira Guerra Mundial. A guerra que para as forças brasileiras náo houve. Acabou antes que chegassem na Europa.
Muitos eram veternos da revolução de 30 e centenas de descendentes de alemães, espanhóis, belgas, negros e italianos haviam participado da campanha da Itália. Monte Prano, Belvedere, Monte Castelo, Monte Cassino e Castelnuovo eram nomes familiares a todos os gasparenses. Muitas famílias choravam filhos abatidos pela metralha alemã e pela desinteria.
Enfim. Era uma cidade pronta para a guerra. Se derrotamos fascistas e nazistas, liquidar a ameaça comunista seria moleza. No dia 29 de março alguns primos que serviam no regimento de infantaria baseado em Blumenau vieram em casa tomar a benção e partiram para as barrancas do Uruguai. Caberia a eles barrar a gauchada que Leonel Brizola ameaçava despachar para o norte. Por nosso povo eles não passariam.
Lembranças. Meu pai desprezava Brizola cordialmente. “Um homem que abandona o próprio nome não tem honra”, repetia ele sempre relembrando que o líder riograndense fora registrado Itagiba de Moura Brizola e depois trocou de nome adotando o Leonel do caudilho maragato Leonel Rocha. “Aquele homenzinho é tão sem-vergonha que esconde ser filho de tropeiro paulista de Sorocaba”.
Vencemos a revolução sem disparar um só tiro. Alguns se frustraram. Depois vieram mais decepções. A carestia atribuída a maquinações comunistas continuou. A vida seguiu. Eu parti. Jornalista, estudei e compreendi o todo da história.
O conhecimento tirou-me as certezas e plantou-me dúvidas. A revolução em algum ponto passou a ser denominada ditadura e depois foi sepultada como golpe militar. Minha aguerrida avó pronta a aferrolhar o bacamarte para matar comunistas morreu, meu pai também. Minha mãe continua. Olho-a com 76 anos e não consigo ver nela uma golpista de 64. É apenas uma das tantas Marias que rezaram para que o comunismo não tomasse nossa Terra de Santa Cruz.

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