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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Totalitarismo, jornalismo e tragédias

Dia do jornalista
Bad news are good news. Más notícias são boas notícias. A máxima do jornalismo americano virou regra para o jornalismo mundial. Notícia boa só é manchete se vier da página de esportes. Amanhã todas as manchetes dos jornais pelo Brasil e mundo afora estamparão a tragédia do Rio de Janeiro. E hoje é dia do jornalista.
Faço dessa profissão a razão de viver a 42 anos. Cobri tragédias iguais ou maiores que essa em tantos lugares. Tenho pesadelos com pessoas saltando das chamas do Andrauss e Joelma para a morte na calçada. Explodindo como grandes pacotes cheios de sangue. Três dias depois comprei uma pinça e arranquei todos os cabelos do nariz para tentar me livrar do cheiro de sangue e carne queimada. Vi mortos empilhados em Moçambique e Angola. Crianças dilaceradas por minas, pequenos corpos trespassados por facões da guerrilha e de soldados coloniais. Assisti o final da matança no Congo, apenas 15 anos depois que os soldados do monarca belga Leopoldo tinham chacinada a população antes de partirem. Como tantos outros antes de mim e centenas ainda hoje, cacei notícias ruins onde elas estivessem. Precisamos denunciar o mal, ouvia, dizia para mim e ensinei adiante. Também é isso, mas a verdade é que sempre vendemos para o café da manhã dos bem nascidos as cenas grotescas da tragédia humana. As TVs estão fazendo isso hoje e os jornais estamparão isso amanhã.
Mas, no Brasil, o dia do jornalista é hoje. E ele também nasceu como uma planta irônica sobre sepultura. João Batista Líbero Badaró nasceu e se fez médico na Itália. Maçon e apóstolo do liberalismo veio para o Brasil. Viveu algum tempo no Rio de Janeiro, foi radicar-se em São Paulo e em1829 fundou o jornal Observador Liberal que desde a primeira edição atacava o absolutismo de D. Pedro I e defendia o modelo democrata e republicano.
O despotismo do imperador, o sucesso das idéias liberais na França e Estados Unidos, a perda da Província Cisplatina e o crescente interesse de D. Pedro pelos negócios portugueses levantou um tsunami de impopularidade para o regime. Em São Paulo, Badaró insuflava a oposição especialmente no meio estudantil. Em 21 de novembro de 1830, depois de participar de uma passeata com estudantes ele foi abordado por quatro homens com sotaque alemão. Um deles sacou a arma e disparou contra o jornalista. Ferido gravemente Badaró morreu no dia seguinte. A um repórter de seu jornal ele disse: Morre um liberal, mas a liberdade continua.
Acusado de mandar matar o jornalista o imperador foi hostilizado em Minas e no Rio e manifestações também ocorreram no Recife e Bahia. A colônia portuguesa realizou uma grande manifestação de desagravo no Rio de Janeiro o que só fez piorar o quadro. Que fosse ele embora com os portugueses. Assim no dia 7 de abril de 1831 Dom Pedro atirou a coroa sobre a cama do filho e foi embora. O Brasil ainda esperaria 58 anos para virar república. Em 1931, no centenário da abdicação, em homenagem a Líbero Badaró, o governo de Getúlio Vargas decretava o 7 de abril como o Dia do Jornalista.
Sendo assim, o nosso dia nasceu da morte de um colega que com seu sacrifício derrubou um imperador totalitário e teve este feito reconhecido por um ditador. E assim seguimos nós, todos os que de tanto noticiarem o mal não se tornaram bêbados, na trilha de novas tragédias e antigas verdades. Hoje ficará na história. No dia do jornalista, em 7 de abril de 2011, um jovem insano que buscou inspiração e conhecimento na internet, servindo-se de textos de jornalistas perpetrou uma tragédia que será lembrada para sempre. Suprema ironia

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom amigo. Como sempre! abs fraternos
Regambin