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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Pouca justiça, muitos direitos e nenhum respeito

Sou gasparense, mestiço, fumante, calvo, acima do peso, liberal, às vésperas dos 60 e heterossexual. Observando, lendo, vendo o que acontece ao derredor, em Florianópolis e Brasília temo seriamente que, se não me exterminarem, terminarei meus dias em alguma masmorra.
Ser gasparense é uma contingência e também significa pertencer a uma minoria. Ser gasparense e descendente de índios, belgas, espanhóis e bascos me coloca em grupo ainda mais diminuto. Tão insignificante que nestes tempos de cotas me torna um pária.
Além de tudo sou calvo. Já tive cabelos. Eram pretos e abundantes. Agora se foram. Virei referência geográfica. “Onde”?”“ Lá ó. Perto do careca”. É humilhante, mas isso eu posso agüentar.
Suporto também estoicamente meus amigos não me escalarem – especialmente o Veríssimo – para o time de futebol da imprensa. Nem reserva sou mais. “Está muito gordo” acusam-me impiedosamente. Ferido sorrio, e lembro-me dos tempos em que fazia gols memoráveis e me buscavam em casa para atuar no time. Ninguém me defende.
Este ano completarei 60 anos. Já ouço que meu tempo passou. Estou superado. Tudo o que aprendi não tem mais serventia. Tudo o que aprendo diariamente até que seria útil se estivesse de posse de alguém mais jovem. De nada adianta estar atento, raciocinar com clareza, escrever com alguma qualidade e pensar que ainda é cedo para a aposentadoria. “Teje aposentado e não incomode quem tem tudo pela frente”.
Sou liberal. Isso é um crime. Defendo liberdade individual, nos campos econômico, político, religioso e intelectual, contra as ingerências e atitudes coercitivas do poder estatal. Posso gritar até a rouquidão que estes são os princípios que defendo. “Fingido. Você é um reacionário de direita”, apodam-me
Sou heterossexual. Sinto vergonha de estar escrevendo isso. Mas é necessário. Sou do tempo e um mundo em que isso só interessaria a minha parceira até porque ela não esperaria coisa diferente. Mas imponho-me confessar tal escolha antes que as leis e convenções denominadas políticamentes corretas me impeçam de fazê-lo. Ou pior, decretem que tal opção é crime contra a humanidade.
Sou fumante. Estou me preparando para mudar esta condição. Mas outros continuarão sendo. Pagamos impostos e que impostos. Vender cigarros é permitido por lei, mas fumar virou crime. Somos empurrados para fora dos bares. Para a chuva, o frio e o vento. Leprosos dos novos tempos.
Tem razão o Jordi Castan ao provocar hoje com a oclocracia. Isto embora seja um palavrão ainda não é ofensivo. Representa a situação em que vivemos. Significa o poder da multidão. Não é uma forma de governo, mas quando instituições e o próprio governo se curvam à irracionalidade das multidões. É quando o direito positivo torna-se subalterno dos instintos e vontades da turba ululante e volúvel. Pobre país que no alvorecer do século 21 passa a construir um sistema de castas e privilegiados.

Um comentário:

Jordi C disse...

João, obrigado pela menção e mais ainda pelo texto, brilhante, ironico e principalmente instigante. Tambem como você raro e em extinção

Abraço