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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Abolição: Heróis e fraudes

Hoje, 13 de maio, completam-se 123 anos da assinatura da Leia Áurea, que punha termo a escravidão no Brasil. O nosso foi último país do ocidente a fazê-lo, embora na África, de onde vieram as massas cativas, até hoje perdure com naturalidade a escravatura. No Senegal, nação que reivindica fazer parte dos países emergentes, ainda existem tribos cativas.
Aqui no Brasil o combate ao regime escravo produziu páginas e personagens que superam em encantamento e aventura os grandes romances da humanidade. Primeiro foram os quilombos. Redutos formados por negros fugitivos. No interior de Minas teve um gigantesco conjunto de vilas tomado e destruído numa campanha ao longo de 20 anos pelos descendentes da família de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera.
O mais famoso quilombo certamente foi o de Palmares que ao longo de quase um século agiu como nação. Dos governantes, o mais famoso é Ganga Zumba, sucedido por Zumbi. Negro, educado por padres matou, o antecessor para se empoderar. Libertou, fez e comercializou escravos com a mesma desenvoltura que seus ancestrais africanos.
Nenhum desses episódios se constituiu em movimento social.
Entre os vultos poderosos do movimento abolicionista três figuras de fascinam: Luiza Mahin, Luiz Gama e Antonio Bento de Souza e Castro. Os três formam uma linha condutora que começa em 1812 e só termina com a morte de Antônio Bento em 1898.
Luiza Mahin era uma princesa da tribo Mahi, da raça nagô. Foi liberta em 1812. Sabia ler e escrever em árabe. Fez de sua casa santuário para fugitivos e centro conspiratório. Casou-se com um nome português. Tinha uma barraca de quitutes que era o centro de comunicação dos rebeldes. A garotada que frequentava o local era parte da rede de comunicação dos insurgentes. A revolta dos Males feita por escravos mulçumanos feriu-se de 25 a 27 de janeiro de 1835. Nos negros fracassaram. Os confrontos foram rápidos e sangrentos. Os revoltosos queriam o fim do catolicismo, a libertação de escravos mulçumanos e o islamismo como religião oficial. Foram presos cento e tantos e condenados a sentenças que iam do degredo a morte. Luiza foi para o degredo.
Seu filho Luiz Gama ficou com o pai, nobre, mas jogador inveterado. Pelo perdão de uma dívida vendeu o filho negro a um traficante paulista. Luiz foi para o interior de São Paulo onde um outro garoto, um pouco mais velho o alfabetizou. Fugiu da fazenda, sentou praça na marinha. Tinha consigo documentos que provavam ter nascido livre. Rebelde foi expulso da força. Novamente em São Paulo assistiu aulas na Faculdade de Direito como ouvinte. Fundou vários jornais, um deles em sociedade com Rui Barbosa. Estudioso da legislação fez-se rábula e passou a atuar nos fóruns paulistas defendendo direitos dos escravos. Jamais divulgou o nome do pai canalha.
Fundou uma organização clandestina denominada "Os Caifazes" (na Bíblia, Caifaz é o sacerdote que paga Judas para trair Jesus e com essa traição, segundo a Igreja, se cumpriram as profecias e a humanidade foi salva). O grupo reunia maçons, juízes, fazendeiros adeptos da abolição, empresários, carroceiros, funcionários da estrada de ferro, barbeiros, jornalistas, advogados e comerciantes. Negros, mamelucos, caboclos e brancos unidos por uma causa.
Os Caifazes roubavam, compravam, escondiam, empregavam e despachavam escravos para o Ceará, onde a abolição se dera em 25 de março de 1884. Ao atuar como advogado Luiz conheceu Antonio Bento, que Raul Pompeia descreve como alto, magro, com cavanhaque e sempre enfiado numa capa negra. Há esse tempo Antonio Bento era Juiz e Delegado de Polícia. Abolicionista convicto atuava em favor dos negros nos tribunais e no movimento clandestino dos Caifazes. Foi demitido e seguiu sua luta. Luiz morre em agosto de 1882. No sepultamento do amigo Antonio Beto promete seguir com sua luta no judiciário e no comando dos Caifazes. Libertaram milhares de negros. Uma divisão capoeiras promovia pancadaria em Santos para atrair a polícia e os capitães do mato enquanto em outro canto eles embarcavam nos negros fugidos em navios e trens. Os navios levavam os mais perseguidos para o Ceará. Os trens transportavam outros para o interior onde eram contratados como assalariados por fazendeiros liberais.
No Rio de Janeiro, sede do império, negros ilustres como José do Patrocínio e brancos como Joaquim Nabuco minavam na Câmara e no Senado as forças dos defensores da escravidão. Foram essas pessoas. Umas poucas conhecidas e milhares que permaneceram no anonimato que forçaram o império a assinar a Lei Áurea já aprovada no Congresso Nacional. Isabel, ao sancionar a lei, que sua assinatura também condenava a monarquia à extinção. Por uma questão de lealdade José do Patrocínio criou sua guarda negra para proteger o sistema e a princesa. Em vão. Passados 18 meses a República se instala para ficar.
Os negros e também os brancos brasileiros tem vultos de homens e mulheres de todas as cores, credos, cujas vidas inspiram ideais. Homens e mulheres que lutaram com inteligência e serviram a Pátria e ao próximo. É só escolher. É quase uma deformação do caráter nacional idolatrar os bandidos. Nordestinos veneram Lampião e Corisco, os negros celebram Zumbi, tem brancos que admiram Hitler, Mussolini, Collor e Sarney. Não se admirem, caso flagrem seus filhos coloando nas paredes pôsters de Fernandinho Beira Mar.

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